HISTÓRICO DA AVIAÇÃO DE PATRULHA


1 - ANTECEDENTES HISTÓRICOS


Retroagindo no tempo, vamos encontrar, há quase 10 anos antes da criação do Ministério da Aeronáutica a primeira Unidade Aérea de Patrulha de que se tem registro no Brasil: a "Primeira Flotilha de Bombardeio e Patrulha", criada na Aviação Naval em 1931, baseada na Ponta do Galeão da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Possuía 7 hidro-aviões, 2 MARTIN PM e 5 Savoia Marchetti e realizou a primeira operação de Patrulha Aérea conhecida. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, três aviões "Savoia Marchetti" realizaram missões de patrulha nas cercanias do porto de Santos, bloqueado pelas Forças Legalistas, visando impedir a chegada de reforços para os rebeldes.

A Aviação Militar do Exército também realizou missões de Patrulha Aérea ao longo do litoral logo no início da 2ª Grande Guerra. Em fins de 1939, deslocou 3 aviões "Corsário" para Belém com a missão de patrulhar o litoral Norte, a fim de verificar possíveis presenças de unidades navais de países beligerantes em nossas águas territoriais. Na mesma época, enviou outros 3 aviões "Corsário" para Recife para, de lá, efetuar missões de patrulha ao longo do litoral Nordeste com a mesma finalidade.



2 - A FASE DO PRÉ-GUERRA


Em janeiro de 1941 foram criados o Ministério da Aeronáutica e a Força Aérea Brasileira, esta pela absorção da Aviação Naval e da Aviação do Exército.

A Aviação de Patrulha na FAB surgiu em fevereiro de 1942. O Brasil rompera relações diplomáticas com os países do Eixo dando mostras de abandono da posição de neutralidade até então mantida. Como represália, os alemães e italianos desfecharam uma campanha de ataques aos nossos navios mercantes em rotas litorâneas, resultando no afundamento de numerosos navios.

A situação da FAB era de total despreparo para empreender ações bélicas eficazes. Não tinha os aviões adequados para as missões de Patrulha, nem em quantidade, nem em qualidade. Não tinha bombas de profundidade, nem treinamento técnico ou tático. Nós não voávamos por instrumento, não conhecíamos navegação sobre o mar, navegação rádio nem navegação astronômica. Não estávamos familiarizados com planos de busca, de esclarecimento ou de cobertura de comboio. Nada sabíamos sobre técnicas de ataque a submarino. Mas, apesar de todas as deficiências, começamos a empreender missões de Patrulha empregando, em total improviso, todos os meios aéreos disponíveis. Aviões B - 25, P- 40, T- 6, FOCK-WULF e outros faziam, regularmente, missões sobre o mar. Aviões de transporte em viagem pelo litoral eram orientados para voar sobre o mar, a uma pequena distância da costa. Acreditava-se que a simples presença de aviões, de qualquer tipo, sobre o mar se constituía em fator limitador da liberdade de ação que os submarinos desfrutavam durante o dia. Nesse início da guerra tudo faltava, menos a garra, a vontade férrea dos patrulheiros de bem cumprir suas missões.

Dia 22 de maio de 1942, um avião B - 25 do Agrupamento de Aviões de Adaptação sediado em Fortaleza, empregado no treinamento de equipagens brasileiras, realizou uma busca na área.onde um navio havia sido torpedeado . O Instrutor era americano e os alunos eram dois Capitães que faziam a adaptação ao novo avião. Foi avistado o submarino italiano BARBARIGO e imediatamente atacado com uma salva de 10 bombas de 100 libras de emprego geral . O submarino mergulhou, sem avarias, e o B-25 retornou a Fortaleza. É de se notar que o Brasil, nessa data, só havia cortado relações diplomáticas com o Eixo, mas ainda mantinha sua neutralidade. A declaração formal de guerra só ocorreu em 21 de agosto de 1942.


Submarino italiano BARBARIGO   Clique Aqui


Esse foi o batismo de fogo da FAB na 2ª Guerra!


3 - A FASE DA GUERRA


Com a Declaração de Guerra aos países do Eixo em 22 de agosto de 1942, o Brasil, como aliado dos EUA, foi beneficiado pelo “LEND AND LEASE ACT”, tendo recebido daquele país, 28 aviões A-28 HUDSON, 6 hidro-aviões PBY-5 CATALINA, 14 aviões anfíbios PBY-5A CATALINA e 14 aviões PV-1 VENTURA para serem empregados no patrulhamento das águas próximas ao litoral brasileiro. Após essa fase de total improvisação, durante a qual foram afundados 20 navios brasileiros, a FAB orientou suas ações em direção ao profissionalismo. Oficiais foram mandados ao exterior para se familiarizar com a Aviação de Patrulha. De nada adiantava receber aviões modernos sem uma instrução adequada sobre seus sistemas, pilotagem, técnicas e táticas de emprego. Com vistas a sanar tais deficiências foi criado em outubro de 1943, inicialmente em Natal e posteriormente no Galeão, unidade de instrução denominada UNITED STATES – BRASIL AIR TRAINING UNIT, que ficou conhecida pela sigla formada por suas iniciais: USBATU.

Em Natal o avião utilizado no curso foi o PV - 1 VENTURA. A instrução abrangeu 3 turmas, compostas de pilotos, tripulantes e mantenedores. Ao término do curso, a FAB recebeu um esquadrão de 14 aviões PV - 1 vindos diretamente da fábrica. Esse esquadrão, autônomo e constituído somente de brasileiros, passou a operar cumprindo ordens de operação e fragmentárias emanadas do ComSoLant - Comando do Atlântico Sul, chefiado pelo Almirante americano Jonas Howard INGRAM.

No Galeão foi realizada a instrução terrestre dos PBY- 5A CATALINA (anfíbios) tendo sido utilizadas as instalações de Santa Cruz para treinamento de vôo. Ao término do curso, a FAB recebeu um esquadrão composto de 14 PBY - 5A em complemento aos 7 PBY- 5 já existentes.

Esse mesmo treinamento foi dado aos tripulantes dos A-28 HUDSON, cuja sede era Fortaleza, mas que operavam desdobrados em aeródromos ao longo do litoral.

Com esse treinamento, a FAB passou a ficar responsável pelo patrulhamento e cobertura de comboio em certos trechos, até então sob a responsabilidade apenas de unidades americanas.

Ao término da guerra a FAB possuía uma Aviação de Patrulha de mesmo nível operacional e com aviões idênticos aos empregados pela Aviação Naval da Marinha Americana.


4 - O 1º RETROCESSO


Logo após o término da Guerra, a Aviação de Patrulha da FAB praticamente desapareceu. Os aviões existiam, mas a Missão foi abandonada. Vários fatores concorreram para esse colapso, dentre eles:

- a ingenuidade demonstrada por aqueles que julgavam afastado o perigo de outra guerra, devido ao provável emprego de artefatos nucleares.

- a convocação da FAB para participar da Integração Nacional. A FAB possuía várias dezenas de aviões de grande porte (para a época) capazes de transportar carga e passageiros. Os aviões de Patrulha passaram a voar em missões administrativas, abandonando o treinamento operacional e sem formar novas tripulações.

- a explosão da aviação comercial brasileira. O recrutamento dos pilotos e especialistas era feito dentre militares da FAB, em particular os da Aviação de Patrulha, provocando uma perda substancial de nossos efetivos.

- a interrupção do fluxo de suprimento. Durante a guerra nossos aviões eram supridos pelos americanos; ao término da guerra o fluxo de suprimento foi interrompido. Em conseqüência, iniciou-se o processo de canibalização dos aviões que resultou em baixa disponibilidade e, até mesmo, na paralisação de vôo.


5 - O RENASCIMENTO


Na segunda metade da década de 50 o Brasil assinou um acordo com os EUA, pelo qual era autorizada a instalação de uma estação rastreadora de satélites em Fernando de Noronha. Como contra partida, nos foi oferecido material militar para nossas Forças Armadas. Para a FAB foi acordada a entrega de aviões C-119, F- 80, T- 33, P-15 e um Grupo Anti-Submarino, constituído de um Esquadrão de Aviões e outro de Helicópteros.

Após o treinamento do pessoal nos EUA, 13 aviões P-15 iniciaram sua operação no 1º/7º GAV em 1959. Tratava-se de um avião projetado especificamente para a missão de Patrulha completa, incluindo minagem e anti-submarino. Passamos a dispor do que havia de mais moderno nesse tipo de aviação especializada.

Em 1960 seguiram para os EUA. as tripulações e mantenedores dos 13 P-16 e dos 6 H-34 constantes do Acordo. Os diversos cursos foram realizados em diferentes unidades da U. S. NAVY, mas em princípios de 1961 todo o pessoal foi reunido em Key West, Florida, onde foram recebidas as aeronaves, passando a operar como um Grupo, o Grupo de Aviação Embarcada (1º GAE), que , ao regressar ao Brasil, teve como sede a Base Aérea de Santa Cruz e deveria "guarnecer os navios aeródromos da Marinha do Brasil"

Já no Brasil, por razões políticas alheias à vontade da FAB, o 1º GAE só passou a operar em conjunto com a Marinha e baseado no porta-aviões MINAS GERAIS a partir de fins de 1965, quando transferiu para a MARINHA os H-34. Desde então, a Aviação de Patrulha realizou várias operações autônomas, participou de várias operações com a Marinha e integrou a Força-Tarefa Conjunta, constituida por Grupos-Tarefa Brasileiros, Americanos, Argentinos e Uruguaios nas denominadas Operações UNITAS.


6 - O 2º RETROCESSO


Em 1978 os P-15 foram desativados. Com isso, a FAB perdeu sua capacidade de se fazer presente a grandes distâncias do litoral e de efetuar esclarecimentos eficazes na enorme área abrangida pela ZEE. Além disso, a capacidade Anti-Submarino ficou reduzida aos P-16, que tinham pequeno raio de ação.

Com a desativação dos P-16, em 1996 a nossa Aviação de Patrulha, além de perder por completo sua capacidade anti-submarino, praticamente também perdeu sua capacidade bélica. Mas, pior do que essa perda material foi a perda de uma experiência acumulada durante décadas, patrimônio técnico-operacional esse que foi se diluindo com o tempo, pouco restando nos dias de hoje.


7 - O QUADRO ATUAL


Hoje a FAB possui cerca de 20 aviões P-95 distribuídos em 4 Esquadrões. Esse avião, de fabricação nacional, é derivado do avião de transporte regional Bandeirante. Possui apenas 2 sensores e é capaz de levar até 6 foguetes de pequeno calibre.. A compra desses aviões foi feita sob a alegação de apoiar nossa industria aeronáutica.

Façamos uma comparação entre o P-95 o P-15 e o PV-1:


.

P-95

P-15

PV-1

AUTONOMIA (hrs)

7:00

20:00

6:30

SENSORES

RADAR

2 RADARES

RADAR

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MAE

MAE

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.

.

DAM

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SIST. ACUSTICO

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ARMAMENTO

4 POD de FOGUETES 70mm

16 FOGUETES

8 FOGUETES

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2 TORPEDOS

2 TORPEDOS

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4 BOMBAS

BOMBAS

ILUMINATIVOS

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FAROL DE   BUSCA

PARAQ. ILUMIN.



Podemos concluir que, em alguns aspectos, a Aviação de Patrulha regrediu para o nível que já havia atingido há 55 anos atrás. Já a ameaça potencial, o Submarino, teve enorme evolução nesse período, inclusive com o desenvolvimento dos submarinos nucleares.

Mas a FAB está em processo de aquisição de aviões P-3 ORION. os quais, após revisão e instalação de modernos sensores, colocarão nossa Aviação de Patrulha entre as mais modernas existentes. Além disso, o P- 3 é um avião Multi-Missão com capacidade para operar em missões de Patrulha e em outras de interesse específico da Força Aérea.


8 - CONCLUSÃO


Como vimos, a Aviação de Patrulha na FAB nasceu a partir dos ataques indiscriminados aos nossos navios mercantes, apesar do estado de neutralidade que o Brasil desfrutava até agosto de 1942.

Em função dos acordos assinados com os EUA, a FAB passou a receber modernos aviões, treinamento, armamento, doutrina, táticas e técnicas de emprego contra submarinos. Passamos a patrulhar nosso litoral e as principais rotas de comboio. A partir de então, nossas perdas foram diminuindo até que os submarinos inimigos praticamente foram expulsos do Atlântico Sul próximo ao nosso litoral. Realizamos vários ataques, tendo sido confirmado o afundamento do submarino alemão U -199 próximo ao litoral de Cabo Frio.

Com o término da Guerra, nossas aeronaves foram empregadas na nobre missão de integração de nosso território. Posteriormente, a Aviação de Patrulha renasceu e passamos a operar com modernas aeronaves.

Mas, com o passar do tempo, esses aviões foram desativados e não foram substituídos. Hoje a FAB possui cerca de 20 aeronaves P- 95, sem capacidade bélica e com várias restrições quanto a equipamentos e autonomia.

Entretanto, está em andamento o processo de aquisição de aeronaves P- 3 ORION, que assegurarão à FAB os meios de proteger nosso litoral até o limite da ZEE (200 milhas) e permitirá ao Brasil marcar sua presença na estratégico cenário do Atlântico Sul.

Há que se ressaltar que o Brasil é um país territorial e marítimo, totalmente dependente de suas rotas oceânicas para sua sobrevivência, o que exige permanente vigilância e ação de presença em águas bastante afastadas de nosso litoral somente asseguradas por uma Aviação de Patrulha moderna, eficiente e apta ao cumprimento de suas missões..

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